Assume-se, sem rodeios, como “um jornalista falhado”. Durante anos evitou entrar no grupo criado pelo pai, por achar que não tinha ali lugar. Ainda assim, há dez anos ocupa a presidência executiva (CEO) da Impresa, depois de se ter candidatado ao cargo. Tornou-se, na altura, o CEO mais jovem do PSI-20 - com a mesma idade que Francisco Pinto Balsemão tinha quando lançou o Expresso.
As iniciais coincidem, mas o registo é outro. Francisco Pedro Balsemão, acabado de fazer 46 anos, descreve-se como mais emotivo e mais presente. Na biografia, o pai apontava no filho mais novo “um lutador, com vida profissional, pessoal e cultural própria”, mas destacava sobretudo alguém com “espírito familiar profundo” e, entre os descendentes, “o único com coragem de dar o peito às balas” para assumir o negócio.
A fronteira entre o íntimo e o público é, porém, mantida com rigidez pelo herdeiro: em assuntos profissionais prefere referir-se ao pai como “Dr. Balsemão”. Mesmo depois da morte, em outubro - uma ausência que, pela forma como ainda o convoca no presente, parece por vezes não ter assentado.
Do lado dos jornalistas, a entrevista nunca esteve tão perto: foi só entrar no elevador. Francisco Pedro recebe-nos no seu gabinete, pequeno e espartano, sem marcas de culto de personalidade ao fundador.
Depois de se concretizar a entrada dos italianos da Media for Europe (MFE) - controlada pela família do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi -, com uma injecção de €17,32 milhões para ficar com 32,9% do capital e tornar-se um parceiro estratégico, multiplicaram-se os pedidos de entrevista ao gestor. Francisco Pedro diz que escolheu falar ao Expresso não por antecipar um “passeio no parque”, mas por ser o meio com maior impacto.
O desconforto não é tema: trabalho é trabalho. Conhece há muito os jornalistas que tem à frente e, logo no início, é confrontado com a ideia de que esta seria uma entrevista “normal”. Pelo caminho, há momentos de contenção, outros de surpresa; no final, fica a sensação de uma conversa como tantas outras.
A entrevista no Expresso e a relação com os jornalistas
Temos de lhe colocar uma pergunta prévia. Acha que esta entrevista vai ser mais fácil por ser feita por jornalistas do Expresso que são empregados da Impresa, grupo ao qual preside e do qual é acionista?
O Expresso já nos habituou a que os seus jornalistas não façam entrevistas fáceis, seja a quem for. Estou preparado.
Media for Europe (MFE) e Impresa: o que está em jogo
A entrada de um acionista de referência na Impresa parece uma história demasiado boa para ser verdade. Um grupo como a Media for Europe (MFE) entra no capital com uma posição minoritária, sem estar na comissão executiva, sem controlo da gestão e pagando um preço que se diz ser simpático. O que a MFE quer da Impresa?
Este processo negocial arrancou há algum tempo e faz sentido à luz das metas estratégicas de ambos. A MFE tem um plano pan-europeu que, em 2025, ganhou ainda mais força com a compra de 75,6% da ProSieben, na Alemanha, mantendo presença também na Suíça e na Áustria. Do nosso lado, enquanto maior grupo privado de comunicação social em Portugal, identificámos uma oportunidade para concretizar algo que já vínhamos a discutir internamente: crescer com uma perspectiva internacional.
E olhar para fora, na prática, implica estar ligado a alguém do mesmo sector, que também é uma empresa familiar, com reconhecida solidez financeira - os resultados da MFE de 2025 são francamente bons - e que ajude a Impresa a posicionar-se num palco maior perante os desafios das grandes plataformas tecnológicas, como a Alphabet, a Meta ou o TikTok. Para nós, integrar um conjunto maior faz todo o sentido.
Mas qual é o grande atrativo da Impresa para a MFE? Portugal é um país pequeno e a Impresa tem problemas de dívida.
É um facto que o mercado português tem menor dimensão do que outros onde a MFE opera. Ainda assim, a Impresa continua a ser dona de marcas com enorme relevância em Portugal: são activos credíveis, com um nível de facturação bastante alto, e isso tem valor. Além disso, os resultados do ano passado já apontavam para o arranque de um novo ciclo, ainda antes da entrada da MFE.
Há também um elemento decisivo: confiança. Falamos de empresas familiares, orientadas por uma visão de médio e longo prazo. Eles olham para nós como um parceiro para estar - precisamente - a médio e longo prazo.
O acordo parassocial assinado entre a MFE e a Impreger [holding da família Balsemão] refere o compromisso de a Impresa dar pelo menos 50% dos resultados aos acionistas em dividendos. É uma novidade porque o seu pai queixava-se de nunca os ter recebido. A garantia de que, havendo lucros da Impresa, pelo menos metade será distribuído pelos acionistas foi um atrativo?
É natural que a MFE pretenda obter retorno. Estamos a falar de empresas que procuram sustentabilidade, mas que, inevitavelmente, ambicionam lucro - porque só assim se consegue reinvestir e fazer o negócio crescer. A MFE sabe que esse novo ciclo, que a Impresa está a iniciar, tem de assentar em resultados.
Para haver dividendos tem de existir lucro, mas é igualmente necessário investir, reforçar o fundo de maneio e aplicar parte desses valores na amortização da nossa dívida.
O facto de a MFE ter ficado com uma posição grande não traz o aliciante de mais tarde ficar com a maioria do capital?
O acordo parassocial não estabelece o que acontece depois de três anos. Ou seja, após esse período, o desenho do futuro fica, de facto, em aberto.
Nem a Impreger nem a MFE podem alterar as posições acionistas durante três anos?
Sim.
Depois desses três anos, a MFE ou a Impreger podem aumentar as participações?
Sim, a partir daí todas as opções ficam em cima da mesa. É normal, nestes contextos, que o novo acionista se apoie no parceiro local: não conhece o mercado português e confia na nossa experiência. Haverá, naturalmente, um período para nos conhecermos melhor e para se perceber como nos vamos posicionar.
Se ao fim desses três anos, após conhecerem o negócio e o mercado, eles quiserem ir embora, a família Balsemão estaria disponível para recomprar?
O essencial, para já, é isto: a MFE é, neste momento, o parceiro certo para nós. Falamos de três anos em que é muito importante termos alguém com esta robustez e com a mesma visão.
Dito isto, a família Balsemão quer manter-se. Existe uma aposta e um investimento de ambos os lados: há investimento financeiro do lado deles, mas também há investimento nosso ao nível da confiança.
Vocês não estão a sair devagarinho?
O que posso dizer é que contamos ficar enquanto esta parceria existir e enquanto tudo estiver a correr bem. A ideia é que ambos permaneçamos na Impresa.
A Impreger não teria problemas em ficar como acionista minoritário se a MFE tomasse uma participação maioritária?
Preferia que essa matéria fosse respondida ao nível do acionista da Impreger, a Balseger [detida em partes iguais pelos cinco filhos de Francisco Pinto Balsemão]. Não sou o único acionista e estou a falar como presidente do conselho de administração e CEO; portanto, não posso responder sozinho.
O que posso afirmar é que a intenção é manter e reforçar esta parceria ao longo dos próximos três anos. E depois também.
Família Balsemão, liderança e continuidade na Impresa
Em março passaram 10 anos da sua tomada de posse como presidente executivo da Impresa. Continua a ver-se, daqui a uma década, como acionista e presidente da Impresa?
Como presidente, não depende apenas de mim; depende, como é óbvio, dos acionistas. Como acionista, a família Balsemão não tem qualquer intenção de sair.
Será um casamento seu para a vida com a Impresa, como foi com o seu pai?
A minha causa é a causa da Impresa. Acredito na liberdade, na liberdade de expressão. Estas não são palavras do dr. Balsemão, a quem venho suceder, são palavras minhas.
Acredito que o nosso papel é cada vez mais necessário. Somos mais de 900 pessoas no grupo, uma equipa óptima, somos muito necessários. A Impresa é muito necessária. Enquanto sentir que sou necessário, ficarei, porque acredito que isto é muito importante para a sociedade portuguesa.
Quando teve consciência de que esta ia ser a sua causa?
Desde miúdo. O meu pai chegava a casa com vários jornais debaixo do braço e dava-nos para ler. Lembro-me perfeitamente de ler a Blitz, que na altura era o Blitz Jornal.
Também lia jornais da concorrência; lia o “Independente”, achava-lhe piada, era irreverente. Sempre me interessei muito por jornais - por curiosidade em relação ao que acontece no mundo e por coisas mais metafísicas.
Quando começou a ser uma missão?
Percebi que seria feliz aqui ainda antes de aqui chegar, mas senti que precisava de passar algum tempo fora para ganhar mais experiência. Sempre tive uma enorme vontade de trabalhar nesta área.
Eu integrava a direcção do jornal da faculdade e, quando estive em Inglaterra a fazer um mestrado, também colaborei com o jornal da universidade.
Nunca quis ser jornalista?
Eu gostava de ter sido jornalista. Sou um jornalista falhado.
Porque não foi?
Porque Direito oferecia mais saídas. E também fui bastante empurrado pelo meu pai para Direito. A minha irmã Joana quis ir para Jornalismo, não correu bem, não gostou. E ficou a ideia de que, se não correu bem para ela, também não correria bem para mim. Por isso, fui para Direito.
Mas no fundo tem alma de jornalista?
Sim. Sou muito curioso, gosto muito de escrever, de ler, de ouvir - como vocês estão a ouvir agora - e sou muito trabalhador. Não sei se seria um bom ou mau jornalista, mas seria certamente jornalista. Admiro muito o trabalho dos jornalistas.
Chegou a dizer isso ao seu pai?
Claro.
E ele dizia o quê?
Cheguei a ponderar fazer um estágio aqui dentro. Ele disse-me que não, que não fazia sentido, que já era tarde. Mas, felizmente, tenho contacto com os jornalistas.
E teve um podcast.
É verdade, mas não posso dizer que seja jornalista, porque não tenho carteira. Ainda assim, fazer entrevistas e pesquisar sobre as pessoas com quem falei deu-me bastante gozo.
Sempre achei piada aos jornais, era muito intenso. Depois veio a televisão, que não é só jornalismo. E desde cedo também me interessou a ficção, o entretenimento, os conteúdos no seu todo.
Mas acabou por lhe calhar o fardo mais pesado, que é o da gestão.
Não encaro isso como um fardo. Se assim fosse, eu seria masoquista. Entrei com 29 anos como director de recursos humanos da Impresa, convidado porque o director anterior se demitiu.
Eu já tinha dito que era melhor não vir, que não existia um cargo para mim, mas apareceu uma oportunidade. Eu já trabalhava na área de recursos humanos e tinha uma vertente jurídica; era uma função que encaixava no meu perfil.
Dois anos depois, acumulei com a área jurídica, porque se demitiu o director jurídico. Um ano mais tarde houve uma mudança na administração e passei a administrador executivo com esses dois pelouros. Fui assumindo responsabilidades à medida que iam surgindo.
E, quando o meu antecessor, Pedro Norton, se demitiu, falei com ele e com o dr. Balsemão e disse que me candidatava. Houve um processo de deliberação, mas a reacção inicial foi de alguma preocupação, talvez pelo peso de responsabilidade que o cargo traz.
E não está arrependido, pois continua no cargo.
Não me arrependo de nada; estou muito satisfeito com o que faço. É uma responsabilidade enorme.
Neste momento, os meus irmãos também são acionistas da Balseger - o nosso pai tinha a maioria do capital social; agora estamos em partes iguais, eu tenho 20% e eles no conjunto têm 80% - e continuo, felizmente, a merecer a oportunidade de estar neste lugar. Acima de tudo, sinto orgulho por ocupar este cargo.
Quando pensamos no sector dos media, lembramo-nos da série “Succession” ou da família Murdoch e em ambos a situação não é pacífica entre os irmãos. Convosco foi tranquilo?
Há quem diga que “Succession” é inspirada na família Murdoch e já me disseram para ver, mas ainda não tive oportunidade. Somos cinco irmãos com uma relação óptima.
Não é contestado?
Não. Assumi estas funções de forma totalmente consensual até hoje. Os meus irmãos apoiam-me, mas também recolho muito dos conselhos deles; e temos os nossos formalismos.
Já era assim com o dr Balsemão e mantivemos - e até reforçámos - a forma como nos organizamos. Temos reuniões formais, agenda e documentação produzida.
Se um de vocês quiser vender a parcela no capital, tem de dar direito de preferência aos outros?
Existe um acordo parassocial que regula a relação entre os acionistas da Balseger e uma das cláusulas prevê que, havendo essa intenção - que neste momento não existe -, a venda deve ser feita com preferência a um dos irmãos.
Governo societário, plano “Impresa 2028” e aplicação do investimento
O que mudou na Impresa com a entrada da MFE?
Ainda é cedo para falar de transformações profundas. Aproveitámos, isso sim, para introduzir mudanças no governo societário, alterações lideradas pela Impreger, porque mantemos o controlo efectivo da Impresa.
Está previsto no acordo parassocial: não foi a MFE que nos impôs o que quer que fosse relativamente às pessoas. Fomos nós que entendemos que este era um momento de mudança e que fazia sentido ajustar a organização à nossa visão de futuro, alinhada com o nosso plano estratégico.
Esse plano assenta em quatro pilares: grande foco nos negócios e nas marcas mais importantes; expansão contínua no digital, porque é para aí que estão a migrar espectadores, leitores e ouvintes; diversificação dentro do nosso negócio principal, por exemplo na área de eventos; e optimização através de um projecto que iniciámos no ano passado, a que chamámos “Impresa 2028”, que passa por reduzir custos e, também, por vender activos que não sejam nucleares.
A MFE tem uma orientação muito próxima: muita execução e nada de floreados; sem dispersão. A mudança concreta, desde a entrada, é que passaram a integrar a administração da Impresa três administradores não executivos, vindos da MFE, com forte experiência nas áreas financeira, comercial e digital.
Dos 17,3 milhões de euros que a MFE fez entrar na Impresa, quanto vai para baixar a dívida?
Não vou quantificar. O dinheiro será usado para amortizar dívida, reforçar o fundo de maneio e investir na componente tecnológica que está a precisar.
A participação na Impresa será integrada na operação da MFE em Espanha?
Não. Não passamos a fazer parte do grupo MFE como Espanha ou Alemanha, onde eles têm empresas que controlam. A ligação que temos é à Itália.
Portugal não passa a ser uma província espanhola num negócio ibérico?
Nada do que discutimos com a casa-mãe da MFE aponta nesse sentido. A minha relação é com Itália.
Dito isto, pode fazer sentido haver ligação a Espanha, por exemplo do ponto de vista comercial, porque há muitos centros de decisão - nomeadamente comerciais e de investimento publicitário - sediados em Espanha, e aí podem existir oportunidades.
Parcerias, consolidação e dívida: contexto e bastidores
Todos os grandes grupos de comunicação social em Portugal tiveram mexidas na estrutura acionista nos últimos anos, desde a Media Capital, a Medialivre (ex-Cofina), à Global Media. A Impresa foi a última. Teve a ver com a intenção do seu pai de manter a maioria do capital?
É preciso enquadrar isto na história da Impresa e não apenas no período recente. A Impresa tem 53 anos, desde o lançamento do Expresso, e ao longo desse percurso tivemos vários parceiros e acionistas, muitos deles de referência.
Quando a SIC nasceu, a participação do dr. Balsemão era cerca de 25% e existiam acionistas nacionais, como o grupo Mello, e estrangeiros, como a Globo. Mais tarde, na própria Impresa, entrou a Pallas, empresa espanhola, aquando da ida para a Bolsa. Nas revistas, tivemos os suíços da Edipress ou a brasileira Abril. E contámos com vários sócios relevantes ao longo do tempo, como a família Ruella Ramos no início do Expresso.
Sempre acreditámos nas parcerias. É possível que isso tenha sido esquecido porque, mais recentemente, não foi tanto assim. Embora a Impresa seja cotada, a verdade é que o capital disperso em bolsa foi relativamente baixo nos últimos anos.
Quando fui mandatado pelo dr. Balsemão, e pela família, para procurar um parceiro de referência, olhámos para o panorama mediático internacional e procurámos, mais uma vez, ser pioneiros a antecipar tendências. E o primeiro grande grupo de média a procurar um parceiro de referência fomos nós.
Não quero ser indelicado - e sem desprimor para os grupos acionistas dos nossos principais concorrentes -, mas este foi um movimento estratégico que procurámos. Trata-se de consolidação através de um grupo estrangeiro, o único em que nos revemos. Há outros grupos estrangeiros que também nos inspiram, mas aquele em que nos revemos, do ponto de vista estratégico, é a MFE. Houve vontade de falar com eles e o interesse em encontrar estabilidade acionista foi recíproco.
Os contactos começaram há muito tempo?
Os contactos principais foram em 2025, mas já nos conhecíamos há anos.
Disse que o seu pai o mandatou para procurar um parceiro de referência. A cedência do controlo acionista foi uma decisão que começou nele?
A decisão começa no dr. Balsemão e começa na família Balsemão. Essa procura foi-se intensificando e também recebemos, de forma reativa, várias propostas que não interessavam.
Ele nunca foi incoerente: dizia que gostava de manter o controlo e nós, hoje, mantemos o controlo. Já não é com a maioria do capital, de 50,1%, mas mantemos o controlo.
Não foi uma decisão dolorosa para ele?
Acima de tudo, foi uma decisão para garantir que o grupo estaria um passo à frente - que era o que ele pretendia. E estar à frente passa, naturalmente, por este movimento de consolidação.
Não há outra forma de encarar o futuro que não seja através da consolidação. Se olharmos para o que nos rodeia, vemos nos Estados Unidos a Paramount a comprar a Warner; na Europa, uma integração vertical com a RTL a comprar a Sky Deutschland; e, na Bélgica, a DPG Media a fazer uma série de aquisições no Benelux. A consolidação é inevitável.
O seu pai disse muitas vezes que os grupos de media tinham de ganhar dimensão e nos últimos anos foram sendo noticiadas conversas entre a Impresa e a Cofina (atual Medialivre). Paulo Fernandes, que liderou a Cofina, disse que a junção dos dois grupos não aconteceu porque o seu pai não queria baixar dos 50,1%. Mas então não aconteceu porque a proposta não era interessante?
O grupo sempre considerou preferível ter um parceiro do sector, mas isso não aconteceu antes por falta de oportunidade. Houve propostas - algumas do estrangeiro -, mas não quisemos.
Quando quisemos avançar, escolhemos o parceiro certo. O ano passado foi quando existiram mais negociações, mas nós já estávamos à procura do parceiro certo.
É natural que tenham existido muitos contactos ao longo dos anos, entre grupos nacionais - nem eu tive conhecimento de todos -, mas seria um movimento muito diferente, de crescimento dentro do país. Aquilo de que falamos agora é antecipar um movimento multinacional ou pan-europeu, que julgo ser mais interessante do que um movimento interno, onde o crescimento é mais limitado.
Antes de ser assinado o acordo com a MFE houve notícias de que a Impresa estava numa situação desesperada, à beira do precipício. Como viu essas informações que que havia uma situação de emergência para resolver?
Se fizerem uma pesquisa na internet com as palavras “Impresa” e “falência”, encontram notícias desde 2005. Não estou a brincar: há mais de 20 anos que se fala disso.
Isso leva-me a concluir que, por sermos um grupo com enorme credibilidade, há muitas invejas; há muita gente que gostaria de nos ver cair. No ano passado, essa vontade ficou mais expressa por determinadas pessoas e meios de comunicação social, que foram muito vocais.
Está a falar de alguém em especial?
Basta olhar para as notícias. E a verdade é que isso depois deu aso a muitos rumores, muita contra-informação, muita desinformação.
Nós fomos fazendo o nosso trabalho; já estávamos em negociações com a MFE. Do ponto de vista financeiro, temos uma dívida que nasce em 2004, quando a Impresa comprou ao BPI os 49% da SIC que não detinha por 152 milhões de euros.
Em 2008, em plena crise, tínhamos uma dívida de 259 milhões de euros - a maior de sempre no grupo. A partir daí, foi necessário reduzir. A empresa conseguiu ir diminuindo esse valor porque foi gerando fluxo de caixa suficiente; houve períodos em que o ritmo foi mais acelerado e outros em que, por várias razões, não foi possível.
Há uma alteração estrutural nos media a decorrer há muito tempo, a que se somaram eventos complexos, como a pandemia de Covid-19, o ataque informático que o grupo sofreu, a guerra na Ucrânia. Essa conjugação de fatores foi determinante para acelerar a decisão de encontrar um parceiro de referência?
Estou há 10 anos nestas funções e fui mandatado há 10 anos para procurar um parceiro internacional de referência, que também permitisse manter o controlo sobre a empresa, que partilhasse os nossos valores e - não escondo - que tivesse robustez financeira.
Essa robustez pode, naturalmente, ajudar-nos a responder aos desafios que se agravaram entre 2022 e 2024, pelas razões referidas.
A entrada da Media for Europe em Portugal é uma má notícia para os grupos concorrentes da Impresa?
Têm de perguntar isso à concorrência. Eu diria que, se escolhemos um parceiro destes - e se o parceiro também nos escolhe a nós - é porque queremos fazer coisas boas e crescer.
Isso traduz-se em vontade redobrada e, para os concorrentes, significa que vão ter mais trabalho: terão uma Impresa ainda mais motivada e com um parceiro internacional que também lhe permitirá crescer por outros caminhos.
Acredita que os principais concorrentes da Impresa já contavam com o fim do grupo e tinham a esperança de dividir os seus ativos?
Não vou comentar rumores. O que acho é que, para os nossos concorrentes, uma Impresa enfraquecida seria sempre melhor do que uma Impresa reforçada; admito que tudo o que pudesse enfraquecer-nos seria melhor para eles.
Os nossos activos são fortíssimos. As nossas principais marcas, Expresso e SIC, são invejáveis, por isso é que continuo a dizer que somos alvo de muita inveja.
Expresso e SIC: valor estratégico e hipóteses de venda
Encontraram um parceiro que não tem imprensa. Se forem apresentadas propostas para aquisição do Expresso, receia que a MFE aceite para reduzir a dívida?
Quando a MFE entra através de um aumento de capital e passa a ser um dos principais acionistas da Impresa, não está apenas a investir na SIC: está a investir no todo - SIC, Expresso e todas as marcas do grupo.
A MFE está convicta de que o Expresso tem um valor que justifica esse investimento. Para nós, o Expresso é um activo fundamental. Temos uma vantagem competitiva por termos duas grandes marcas e, se olharem à volta, os nossos concorrentes não têm duas marcas com o peso das nossas.
Isto não é apenas por eu, Francisco, gostar de ler o Expresso - tal como a família Balsemão, para quem o Expresso diz muito -; existe aqui um valor económico para o grupo Impresa que nos leva a dizer à MFE, e a demonstrar com números, que o Expresso é um activo que deve ser, não só preservado, mas reforçado.
Existiu alguma proposta específica para comprar o Expresso?
Não.
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