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Geração Z: quando as novas chefias criticam a própria Geração Z no trabalho

Jovens profissionais numa reunião informal em escritório moderno com laptops, tablets e café numa mesa de madeira.

Durante anos, a Geração Z foi tratada como o “menino-problema” sensível do mundo do trabalho. Agora, os primeiros representantes desta geração já ocupam cargos de chefia. E, de forma inesperada, são precisamente eles a apontar o dedo ao estilo de trabalho de colegas mais novos - pessoas que, à partida, deveriam estar “no mesmo barco”.

Quando os mais novos criticam os mais novos

Até aqui, o guião do conflito geracional era previsível: chefias mais antigas queixavam-se de pouca lealdade, falta de garra e exigências excessivas; os mais jovens respondiam com referências a salários baixos, cultura de horas extra e ausência de propósito no emprego. Esse enredo continua bem presente - mas começa a virar-se contra si próprio.

Sondagens recentes indicam que profissionais de RH classificam a Geração Z como particularmente difícil. Uma parte considerável vê os trabalhadores mais jovens como o grupo mais desafiante dentro das organizações. O elemento surpreendente é que muitas destas críticas já não vêm apenas de gestores experientes: chegam também de decisores muito jovens que pertencem à mesma faixa etária - nascidos entre meados da década de 1990 e o início da década de 2010.

A geração que durante muito tempo foi vista como vítima de culturas empresariais rígidas começa agora a olhar para si própria ao espelho - e não poupa nas críticas.

Isto entra em choque com um estereótipo popular: a ideia de uma juventude totalmente solidária e hiperprogressista, unida contra “os mais velhos”. Na prática, dentro da própria Geração Z coexistem - e colidem - visões muito diferentes sobre carreira, ética de trabalho e projecto de vida.

O que os jovens líderes criticam nos seus pares

Quem conversa com profissionais de RH e com chefias muito jovens ouve frequentemente as mesmas queixas. O alvo raramente é “a juventude” em abstracto; a irritação recai sobretudo sobre padrões de comportamento que, no dia a dia, geram atrito e desgaste.

  • Baixa tolerância à frustração: pequenos contratempos ou feedback crítico levam alguns a retraírem-se ou a imaginar de imediato que “mais vale despedir-se”.
  • Expectativas muito elevadas: procura de propósito, flexibilidade e progressão rápida - ao mesmo tempo que existe resistência em assumir tarefas rotineiras.
  • Mentalidade de “quiet quitting”: separação rígida entre trabalho e tempo pessoal, que alguns líderes interpretam (por vezes erradamente) como desinteresse.
  • Comparação constante: as redes sociais alimentam a sensação de estar sempre a ficar para trás - e fazem crescer a impaciência.

Para muitas chefias jovens da mesma geração, estes padrões são um ponto sensível. Querem provar que conseguem render acima do cliché da “geração TikTok preguiçosa”. E, por isso, esperam que os colegas também “vistam a camisola” com mais intensidade.

O equilíbrio difícil entre work-life balance e pressão por performance

Um foco central desta tensão interna é a forma como se entende o work-life balance. Uma parte da Geração Z define fronteiras claras: quando o horário termina, termina mesmo; a disponibilidade fora de horas é rejeitada de forma consistente. Outra parte - sobretudo quem está em trajecto de subida para a gestão - encara essa postura como confortável demais.

Muitas chefias jovens vivem uma pressão dupla: pretendem evitar os erros das gerações anteriores, mas também querem avançar depressa na carreira. Quem ambiciona subir tende a trabalhar mais horas, assumir responsabilidades adicionais e, a certa altura, sentir que colegas da mesma idade os deixam “sozinhos” no esforço.

Uns dizem: “A minha vida é mais importante do que o trabalho.” Outros: “Sem passos extra não há progressão.” As duas posições existem na Geração Z - e agora chocam de forma aberta.

O que as sondagens mostram, na prática

Uma sondagem muito citada junto de responsáveis de RH nos EUA ilustra bem esta mudança: a maioria dos profissionais inquiridos coloca a Geração Z como o grupo mais difícil nas empresas. O ponto relevante é que não se trata apenas de gestores acima dos 40 anos - o retrato inclui também decisores de RH muito jovens.

Deste cruzamento resulta um quadro mais matizado:

Perspectiva Impressão sobre a Geração Z
Chefias mais antigas Apontam frequentemente falta de lealdade, demasiadas exigências especiais e pouca perseverança.
Chefias jovens (Geração Z) Criticam falta de profissionalismo, pouca fiabilidade e pensamento de curto prazo.
Colaboradores jovens (Geração Z) Sentem estruturas desactualizadas, comunicação fraca e pouco interesse real no seu desenvolvimento.

Forma-se, assim, um puzzle geracional em que cada lado se sente, em parte, incompreendido - e, ainda assim, todos acabam por falar uns “ao lado” dos outros.

Como as empresas podem gerir o conflito interno

A fractura dentro da Geração Z não tem de ser, por definição, prejudicial para as empresas. Quando é reconhecida a tempo, pode até ser aproveitada. Em muitos casos, as chefias jovens têm uma vantagem concreta: uma perspectiva dupla. Percebem o que o topo exige e, ao mesmo tempo, conhecem a realidade e as prioridades dos seus pares.

Algumas alavancas úteis no quotidiano incluem:

  • Papéis e expectativas claras: os mais jovens beneficiam de objectivos bem definidos e de critérios transparentes para avaliação e progressão - em vez de promessas vagas.
  • Cultura de feedback sem dramatização: feedback frequente e rápido ajuda a resolver problemas pequenos antes de se tornarem frustração acumulada.
  • Flexibilidade com regras: horários flexíveis, opções remotas e modelos de quatro dias podem funcionar, desde que metas e responsabilidade estejam claramente estabelecidas.
  • Percursos de progressão visíveis: quem quer evoluir precisa de ver etapas e requisitos concretos - não apenas slides apelativos em apresentações.

Neste processo, as chefias jovens são determinantes. Podem actuar como tradutores entre a gestão de topo e a nova força de trabalho - desde que não construam a sua identidade apenas por oposição aos colegas da mesma idade.

Porque é que a Geração Z é tão diversa

Uma parte da divisão explica-se pelas circunstâncias em que esta coorte cresceu. Muitos viveram crises económicas, confinamentos durante a pandemia e uma disponibilidade digital permanente. Em vários casos, escola, universidade e os primeiros empregos aconteceram, parcial ou totalmente, online. Isso marcou profundamente a forma como encaram o trabalho.

Quem terminou, por exemplo, o curso durante a pandemia passou a associar trabalho a videoconferências, janelas de chat e ferramentas de gestão de tarefas. Para este grupo, estar no escritório não é um padrão “natural”, mas sim uma excepção. Outros, que viveram experiências mais tradicionais em contextos de formação e empresas, valorizam muito mais a proximidade presencial e o “poder pôr as mãos” no que fazem.

A isto soma-se o efeito das redes sociais: o sucesso parece fácil, e o trabalho visível surge frequentemente como curto e glamoroso. A parte lenta e pouco apelativa da carreira - aprender, repetir, criar rotinas - raramente aparece no feed. Isso alimenta a impaciência e a procura do salto rápido para cima.

Termos que aparecem repetidamente no debate

À volta da Geração Z surgem constantemente novos rótulos. Três conceitos, em particular, podem ser distinguidos com clareza:

  • “Quiet quitting”: cumprir apenas o que está no contrato - sem extras e sem horas adicionais não pagas.
  • “Career cushioning”: manter, em paralelo ao emprego principal, uma segunda via de segurança, por exemplo com actividades extra ou candidaturas contínuas.
  • “Bare minimum Monday”: tendência nas redes sociais que propõe iniciar a semana com menos pressão, para reduzir stress.

Mesmo quando estes fenómenos vêm da sua própria faixa etária, muitas chefias jovens olham para eles com cepticismo. Reconhecem necessidades legítimas de protecção contra sobrecarga, mas receiam que, a longo prazo, as equipas percam capacidade de execução.

O que isto significa para o mercado de trabalho de língua alemã

Muitas destas dinâmicas não se limitam aos EUA; observam-se sinais semelhantes na Alemanha, Áustria e Suíça. A escassez de profissionais qualificados intensifica a tendência: quem é jovem e tem uma formação procurada encontra, muitas vezes, um novo emprego rapidamente. Isso reduz a barreira psicológica para abandonar funções insatisfatórias - e aumenta a pressão sobre as empresas para levarem a sério as expectativas da nova geração.

Ao mesmo tempo, o conflito dentro da própria geração evidencia algo essencial: a Geração Z está longe de ser homogénea. Entre “fãs do propósito”, que colocam o sentido acima de tudo, e perfis orientados para carreira, que se afastam deliberadamente da narrativa do tempo livre, existe uma distância enorme. Quem tratar todos por igual vai falhar - tanto na liderança como no recrutamento.

Para as empresas, isto também abre oportunidades. É possível compor equipas de forma intencional: chefias jovens ambiciosas, que exigem desempenho, combinadas com colaboradores que dão prioridade a equilíbrio, sustentabilidade e saúde mental. Com estruturas bem moderadas, podem surgir modelos de trabalho realistas - que não regressam à maratona de escritório dos anos 90, mas também não delegam toda a responsabilidade.

No fim, a conclusão é pragmática: o problema não é “a juventude”, mas sim a gestão de atitudes muito diferentes perante trabalho e vida dentro da mesma faixa etária. O facto de a Geração Z discutir isto abertamente pode ser um começo - desde que as empresas o ouçam e façam disso mais do que a próxima manchete.

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